Fábrica de Arte Marcos Amaro

EXPOSIÇÃO / passada

Aproximações

Aproximações

Fábrica de Arte Marcos Amaro recebe mostra com curadoria de Aracy Amaral

Exposição Aproximações apresenta ao público breve introdução à arte brasileira do século XX, abarcando produções de antes do modernismo até as décadas de 1930 e 1940

A partir do dia 13 de abril, a Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA), em Itu, recebe a mostra Aproximações – Breve introdução à arte brasileira do século XX, curada por Aracy Amaral. A exposição reúne 60 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e fotografias que, justapostas, tornam possível a compreensão dos contextos sociais, políticos e, principalmente artísticos, em que foram produzidas. O recorte traz trabalhos de importantes nomes da arte brasileira, de Almeida Junior a Geraldo de Barros, passando ainda pelos mais célebres modernistas, entre os quais se destacam Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral.

No final do século XIX, os brasileiros tomavam como referência econômica e cultural a Europa e, em especial, a capital francesa, Paris. Por aqui, São Paulo começava a dar os primeiros passos rumo à industrialização, patrocinada pela elite cafeeira do interior do Estado, que nutria certa identificação com a cultura do velho continente. A incorporação de padrões europeus na arte não era algo novo, mas remetia ao ano de 1816, marcado pela vinda da Missão Artística Francesa ao Brasil e à fundação da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, pela coroa portuguesa.

“Os artistas viajantes que vieram por nossas terras em missões específicas de exploração ou mera curiosidade pelo exótico a partir de inícios do século XIX, registraram de maneira ímpar nossa realidade humana e nossas espécies vegetais, seja em pintura, desenho ou gravura”, pontua Aracy. “Só muito tardiamente nossos artistas se dariam conta ou se motivariam com a paisagem e o entorno brasileiro. Inclusive no que tange às novas técnicas, à luz e à realidade circundante”, completa a curadora.

Antes do modernismo

 Mais antiga obra do recorte apresentado, a tela de Almeida Júnior abre o núcleoque conta ainda com trabalhos de artistas como Artur Timóteo da Costa, um dos raros de origem negra a se sobressair no período em questão, Eliseu Visconti, Pedro Alexandrino, Rodolfo Amoedo, entre outros.

Já nos anos que antecederam a chegada do século 20, os estatutos da Escola Nacional de Belas Artes (antiga Academia Imperial, renomeada no pós-República) começaram a ser questionados. Da ânsia pela renovação, o desejo de rompimento da intelectualidade com o século XIX e o academismo nas artes visuais. Começaram a surgir ateliês livres e cursos de pintura ao ar livre. Em Porto com barcos e homens (1887), Giovanni Battista Castagneto traz o registro do litoral fluminense.

Ainda que os olhos começassem a se voltar para o contexto nacional, os pintores brasileiros ainda estudavam em Paris, muitas vezes bancados por bolsas oferecidas pelas Escolas de Belas Artes. Dos ateliês de mestres franceses ao Brasil, raros eram os que se envolviam em experimentações ou que, já aqui tomavam conhecimento com tendências em voga na Europa. Muitos cultivavam o realismo projetando a imagem do Brasil que viam a seu redor, sem outras preocupações. “Quando Visconti traz para o Rio de Janeiro, capital da República, inovações impressionistas embora já tardiamente, é considerado um abridor de caminhos”, pontua a curadora.

Modernismo

 No Brasil, internacionalismo e nacionalismo são simultaneamente as características básicas do movimento modernista. Isso porque o aguçamento da percepção em relação à realidade brasileira se deu, paradoxalmente, em decorrência da ampliação dos horizontes culturais de nossos artistas. Tarsila do Amaral, por exemplo, despertara para o popular brasileiro quando ainda na França. O mesmo acontecera com Vicente do Rego Monteiro, e Di Cavalcanti – representados na mostra organizada por Aracy Amaral.

As armas modernistas empunhadas em prol da renovação chegaram também da Alemanha, país que abrigara por tempos figuras como Lasar Segall e Anita Malfatti. A artista paulistana viveria ainda nos Estados Unidos, em Nova York, de onde retornaria em 1916, com telas de traços expressionistas, que fariam eclodir uma revolução a partir de sua individual no ano seguinte, violentamente combatida por Monteiro Lobato, em seu famoso artigo Paranoia ou mistificação, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo. De Anita, a mostra traz o desenho Nu Masculino (Homem magro) (1915-1916), em carvão sobre papel.

Os anos 1920 chegaram com as comemorações que marcavam o centenário da independência do Brasil e, nesse contexto, crescia o desejo de exaltar o nacional, de assumir a realidade brasileira, um país jovem que ansiava por se impor. Esta foi a força motriz que gerou a Semana de Arte Moderna, manifestação artístico-cultural multidisciplinar que reuniu expoentes da poesia, literatura, música, arquitetura e artes plásticas, no Teatro Municipal de São Paulo.

A década seguinte reuniria uma produção singular sem igual, criações daqueles que marcariam o movimento modernista nas artes plásticas no Brasil. Deste período, a mostra traz Mulher com flores (1930), de Di Cavalcanti; Aqui é desembarque porque? (1928), de Cícero Dias – obras que jogam holofotes à cultura brasileira.

Raros seriam os artistas que passariam indiferentes à preocupação com o nacional. Entre as exceções, Ismael Nery, que se debruçou sobre questões existenciais e, ao mesmo tempo, deixou-se influenciar pelo movimento art déco, de tendência decorativa derivada de estilizações cubistizantes. Dele, um conjunto de três obras: Figura com sombras(sem data); Núcleo vegetal (1931) e A mão predatória (1933).

Décadas de 1930 – 1940

A curadora Aracy Amaral enuncia o núcleo pós-modernista chamando atenção para Flávio de Carvalho, desenhista, arquiteto, pintor, escultor e agitador do meio artístico, personalidade ímpar nos anos 1930, que se destacou em um momento em que os modernistas da década anterior se retraíam ou perdiam seus rumos. Foi ele o idealizador da primeira performance de que se tem notícia no País: em 1931, em sua Experiência nº 2, enfrentou uma multidão pelas ruas de São Paulo, caminhando em sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi. O ato foi considerado desrespeitoso pelos presentes, principalmente porque o artista levava sob a cabeça um chapéu. Na ocasião, Carvalho quase foi linchado, tendo de se refugiar numa confeitaria na rua de São Bento.

Em 1956, mais uma performance. O artista criou um modelo de roupa masculina, concebido especialmente para um país tropical. Os trajes, um deles hoje exposto na FAMA, consistiam em uma saia de pregas e uma blusa de mangas bufantes. Na ocasião então denominada de Experiência n° 3 – New Look, Flávio de Carvalho desfilou pelas ruas do centro de São Paulo, causando escândalo na multidão. Seu objetivo era levar à reflexão as convenções sociais para o traje mais pertinente para um país tropical.

A exposição traz ainda trabalhos típicos da segunda fase do Modernismo, a exemplo de Roda Infantil (1932), de Candido Portinari; Paisagem de Mogi (déc. 1940), de Alfredo Volpi; Paisagem imaginária (1950), de Alberto da Veiga Guignard; e Natureza morta (1951), de José Pancetti.

Pouco a pouco, a figuração então onipresente, vai dando margem à abstração. Tal movimento, inclusive, pode ser observado no trabalho do cearense Antonio Bandeira, onde as linhas parecem perder a continuidade, deixando de contornar figuras e tomando toda a obra, como em La ville tranquille (1952).

“Um artista em quem o expressionismo emerge com força nesse período é o gravador Oswaldo Goeldi, com suas gravuras ‘noturnas’ de extrema densidade e beleza. Ao mesmo tempo, o recado de índole política de Livio Abramo, desenhista e gravador, comparece com força como profissional da gravura e professor de várias linhagens de jovens artistas formados por ele”, pontua a curadora. Deles, a xilogravura policromada Tarde (s.d.) e Paisagem paulista (déc. 1940), respectivamente.

Simultaneamente ao processo de abstração das artes plásticas, uma nova forma de visualidade apaixonava jovens inquietos: a fotografia. Em 1939, foi fundado o Foto Cine Clube Bandeirante, um dos mais antigos e importantes fotoclubes do País. Instalado em São Paulo, foi essencial para o entendimento da fotografia não apenas como uma ferramenta documental, mas também artística. De lá, expoentes da fotografia nacional, entre os quais Geraldo de Barros, German Lorca, Thomaz Farkas e Gaspar Gasparian, todos representados na mostra curada por Aracy Amaral.

Sobre a curadora

Personalidade singular na história da arte brasileira, Aracy Abreu Amaral nasceu em São Paulo (1930) e vive e trabalha na cidade.

Foi professora-titular de História da Arte pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, diretora da Pinacoteca do Estado de São Paulo (1975-1979) e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (1982-1986), membro do Comitê Internacional de Premiação do Prince Claus Fund, em Haia, na Holanda, e coordenadora-geral do Projeto Rumos Itaú Cultural (2005). Em 2006 ganhou o prêmio Fundação Bunge (antigo prêmio Moinho Santista) por sua contribuição à área de Museologia. Em 2013, foi reconhecida com o Prêmio Governador do Estado pela curadoria da exposição Exercícios de Olhar (São Paulo, 2012). E, em 2017, foi homenageada pela Ocupação Itaú Cultural com exposição sobre sua trajetória na história da arte nacional.

Coordenadora-geral do Projeto Rumos Itaú Cultural (2005-2006), também realizou curadoria na 8ª Bienal do Mercosul e na Trienal do Chile. É autora de publicações como Arte para que? A preocupação social na arte brasileira, Edit.Nobel/Itau Cultural (1983/2003), Blaise Cendrars no Brasil e os modernistas (1970), Artes plásticas na Semana de 22 (1970), Tarsila: sua obra e seu tempo (1975), todos reeditados pela Editora 34.v

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