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Telhas, navios e pirataria revelam como Itu entrou na rota da arquitetura industrial

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O restauro da Fábrica São Pedro, atual sede do Museu FAMA, expõe a origem europeia das técnicas construtivas que transformaram Itu em referência industrial e ceramista

Itu, janeiro de 2026 – O complexo arquitetônico da Fábrica São Pedro, em Itu, atual sede do Museu FAMA, atravessa uma das etapas mais delicadas e simbólicas de seu processo de restauro, o tratamento das telhas originais que cobrem os oito galpões do conjunto.

Marco da arquitetura industrial paulista do início do século 20 e um dos mais importantes bens patrimoniais de Itu, o complexo ocupa uma área total de 4.526 m², distribuída em galpões que ajudaram a moldar a paisagem urbana, econômica e cultural da cidade. O trabalho em andamento é conduzido por uma equipe multidisciplinar, reunindo arquitetos, restauradores, historiadores, museólogos e técnicos especializados, com o objetivo de preservar não apenas a estrutura física, mas também as histórias inscritas em cada detalhe do edifício.

Neste momento, o foco do restauro está voltado ao telhado, elemento que, longe de ser apenas funcional, guarda técnicas construtivas avançadas, materiais importados e até “pirataria” industrial no Brasil, segundo Emerson Castilho, museólogo e responsável pelo setor educativo do Museu FAMA.

Emerson, tem se dedicado a transformar o processo técnico do restauro em uma ferramenta de educação patrimonial e segundo ele, a história das telhas da Fábrica São Pedro começa muito antes da construção do prédio, passando pela trajetória de Ramos de Azevedo, um dos mais importantes arquitetos brasileiros do período. Natural de Campinas, ele se formou na Bélgica e retornou ao Brasil na virada do século 19 para o 20 trazendo consigo não apenas conhecimento arquitetônico, mas também uma visão moderna de construção e negócios.

Ramos de Azevedo atuava de forma integrada: projetava, coordenava as obras e importava os materiais. Tijolos, telhas, azulejos, ladrilhos hidráulicos, calhas e sistemas construtivos inteiros chegavam da Europa, especialmente da França. No caso da Fábrica São Pedro, o edifício foi literalmente “embarcado” para o Brasil: telhas e tijolos vieram da França, identificados por marcas de origem da cidade de Marselha, enquanto a madeira foi extraída dos biomas do Cerrado e da Mata Atlântica, e as rochas, como o varvito e o granito rosa, eram endêmicas da região de Itu.

“O telhado da Fábrica São Pedro é 100% francês. O prédio inteiro foi tombado por conta disso”, explica Emerson. O conjunto construtivo não apenas marcou a paisagem urbana, como também serviu de referência para outros edifícios comerciais e residenciais de Itu, consolidando um padrão arquitetônico que se espalhou pela cidade e região.

Mas a história guarda um detalhe curioso. Segundo Emerson, ao chegar a Itu, as telhas francesas da Fábrica São Pedro chamaram a atenção pela qualidade e pelo desenho. A cidade, que possuía solo argiloso de excelente qualidade, logo passou a reproduzir essas telhas localmente.

Utilizando moldes negativos das peças importadas, os ceramistas locais iniciaram uma produção própria. As pequenas diferenças de milímetros entre as telhas originais e as reproduzidas configurariam, nos termos atuais, uma “pirataria” de patente, explica o Museólogo.

Esse movimento, no entanto, foi decisivo para o desenvolvimento econômico da região. A partir dessas telhas, teve início um robusto ciclo ceramista em Itu, baseado no barro vermelho, que ganhou força após os ciclos do ouro, do café, do algodão e do açúcar. O que começou como cópia acabou se tornando identidade, técnica e economia local.

Limpar e preservar

Paralelamente à pesquisa histórica, o restauro avança com rigor técnico. Segundo Izabelle Basso, arquiteta residente da BOA SP Arquitetura, empresa responsável pela restauração, o processo de limpeza e tratamento das telhas é essencial para garantir sua preservação e reaproveitamento.

Segundo ela, no Anexo Um do complexo arquitetônico da Fábrica São Pedro as telhas foram totalmente removidas para permitir uma intervenção mais profunda. O procedimento começa com uma limpeza preliminar, retirando o acúmulo mais grosso de sujeira. Em seguida, as peças passam por um banho de imersão por 60 minutos, em água com detergente na dosagem correta. Após esse período, cada telha é escovada manualmente, enxaguada e colocada para secagem por 24 horas.

Esse anexo funciona como uma espécie de “banco de telhas”. Segundo Isabela, as peças recuperadas serão utilizadas para substituir eventuais faltas nos demais galpões. O Anexo 1, com cerca de 230 m² de cobertura, representa menos de 5% do total do telhado. Nos outros anexos, a limpeza será feita diretamente sobre o telhado, respeitando as condições estruturais.

Um dado chama a atenção: nenhuma telha original retirada quebrou durante o processo. A constatação reforça a qualidade do material centenário e justifica a opção pela preservação máxima. As telhas são, em sua maioria, originais de Marselha, com variações naturais de barro — algumas mais amarronzadas, outras mais claras — que hoje ajudam a contar a própria história de sua origem.

O restauro da Fábrica São Pedro vai além da recuperação física de um edifício. Ele revela conexões internacionais, ciclos econômicos, técnicas construtivas e escolhas culturais que moldaram Itu e o interior paulista. A obra é realizada pela Associação Museu São Pedro – Museu FAMA, instituição responsável pela gestão e preservação do espaço. Reconhecida desde 2003 pelo CONDEPHAAT como Patrimônio Arquitetônico Industrial do início do século 20, a antiga fábrica se prepara para uma transformação cultural que reunirá parte da coleção de arte brasileira do Museu FAMA e parte do acervo do Museu Asas de Um Sonho em um mesmo espaço expositivo.

A iniciativa foi contemplada pelo Edital Fomento Cult SP PNAB nº 12/2024, promovido pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo e pelo Ministério da Cultura – Governo Federal. As obras têm duração prevista de doze meses.

Assessoria de Comunicação
Rodrigo Tomba Comunicação
📞 (11) 99954-1884

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